A pergunta que não se responde
Qual o sentido da vida?
Talvez essa seja a pergunta mais antiga e também a mais desigual.
Porque a vida não começa igual para todos. Alguns chegam desejados, celebrados, planejados. Outros chegam no susto, no medo, na ausência de escolha. Há ventres onde se luta para permanecer; há outros onde a permanência é cogitada como erro. Ainda assim, o nascimento acontece. Com amor ou sem ele.
Depois, o mundo se apresenta e não se apresenta do mesmo jeito.
Uns crescem cercados de conforto, tempo e possibilidades. Outros aprendem cedo que escolha é privilégio. Para alguns, a escola é futuro; para outros, é a única refeição do dia. Uns seguem estudando porque podem. Outros interrompem porque precisam trabalhar antes mesmo de entender o que é sonho. Porque o dever chama cedo. Porque a fome não espera.
Enquanto alguns se perguntam “por quê?”, outros apenas seguem. Sobreviver não deixa espaço para filosofar.
Talvez por isso Chaplin tenha sido tão preciso ao dizer que a maior injustiça da vida é a maneira como ela termina. Ele imaginou um mundo ao contrário, onde morremos primeiro e depois vamos ficando leves. Onde se trabalha quando se tem força, se descansa quando ainda há energia, se aprende quando há curiosidade. A ironia revela o óbvio: a vida é mal cronometrada. A compreensão chega tarde. O descanso vem quando o corpo já não acompanha.
Para quem teve tudo, o sentido da vida pode ser uma busca. Para quem teve pouco, muitas vezes é resistência. Uns questionam o propósito. Outros só tentam passar pelo dia.
E talvez o erro esteja justamente em procurar demais.
Talvez a vida não tenha um sentido único. Talvez ela seja um emaranhado de sentidos quebrados, distribuídos de forma injusta, como quase tudo neste mundo. E talvez o verdadeiro absurdo não seja perguntar qual o sentido da vida mas fingir que todos tiveram as mesmas condições de encontrá-lo.
No fim, seguimos.
Alguns refletindo.
Outros suportando.
Todos, querendo ou não, atravessando esse estranho intervalo entre o nascer e o terminar, tentando cada um à sua maneira dar algum significado ao caminho.
Talvez o verdadeiro sentido da vida não seja encontrá-lo, mas senti-la. Em sua totalidade. Com tudo o que ela carrega. Fazer o bem mesmo quando existem motivos para fazer o mal. Ser gentil mesmo quando a gentileza não retorna. Continuar humano num mundo que, muitas vezes, parece não ser.
Talvez o sentido esteja em parar de perguntar tanto
e simplesmente viver.
Algumas perguntas não se explicam.
Se vivem.
Porque há perguntas que não se respondem
a própria vida é a resposta.

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