O segredo é tornar-se
Ser maçom vai muito além de colocar um avental e adentrar o templo. Vai além de ser aprendiz, companheiro ou mestre, de galgar graus filosóficos até o 33. Costumo dizer que, antes de sermos, já éramos. Há homens que jamais foram iniciados e, ainda assim, trazem no íntimo a argamassa silenciosa da virtude. E há outros que ostentam os mais altos graus, mas parecem ainda tatear a própria pedra como se nunca tivessem começado a lapidação.
Ser maçom é aprisionar as inclinações que degradam e edificar, no íntimo, a arquitetura da virtude. É avançar em si mesmo quando ninguém observa, disciplinar vontades quando não há testemunhas. Não bebemos sangue, não fazemos sacrifícios, não montamos em bodes, não ferimos princípios religiosos. Apenas buscamos nos lapidar para sermos melhores a cada dia. Não é a religião que se senta à mesa das reuniões, pois pouco importa o caminho escolhido pelo espírito. O que importa é reconhecer o Princípio Criador, o Grande Arquiteto do Universo, e aceitar que toda obra começa no invisível antes de tocar a matéria. Ser maçom é mais filosofia de vida que ato de fé. É retirar dos papéis as palavras liberdade, igualdade e fraternidade e carregá-las acesas no peito, para que caminhem conosco fora do templo, nas ruas onde a consciência é a única testemunha.
Talvez muitos já o sejam sem iniciação e não saibam. Talvez outros tenham atravessado as colunas há décadas e, ainda assim, a Ordem permaneça à porta, esperando permissão para entrar. Porque há uma diferença silenciosa entre estar na Maçonaria e permitir que a Maçonaria habite o homem. O primeiro veste símbolos. O segundo torna-se símbolo.
No Dia do Maçom, confesso, nunca me seduziram as datas. Dia dos pais, das mães, dos homens. Sempre me pareceu que o tempo não aceita repartições quando o amor ou a virtude são verdadeiros. Ainda assim, compreendo o gesto humano de marcar no calendário aquilo que teme esquecer no cotidiano. Por isso escrevo. Não para celebrar um dia, mas para lembrar uma essência.
E se tantos perguntam pelos segredos da Maçonaria, talvez a resposta sempre tenha estado à vista, embora poucos a reconheçam. Os verdadeiros segredos não se guardam em cofres nem se sussurram em câmaras ocultas. Permanecem velados na simplicidade de um caráter que se reforma, na vigilância de uma consciência que não se negocia, na silenciosa vitória de um homem sobre si mesmo. São segredos porque não podem ser transmitidos, apenas vividos. Não se revelam por palavras, mas pelo tempo, pela queda e pelo reerguer, pelo trabalho paciente que transforma o interior até que a luz deixe de ser promessa e se torne presença.
Afinal, o avental repousa quando a sessão termina, mas a consciência continua em vigília. O templo fecha as portas de madeira, mas o templo interior permanece aberto, exigindo obra, silêncio e verdade. E enquanto alguns procuram títulos, a virtude procura morada. Bate devagar, como quem sabe que toda iniciação real acontece por dentro.
Ser maçom, no fim, é isso: permitir que a pedra fale, que o cinzel responda e que o homem, entre golpes e pó, descubra que a verdadeira luz não se recebe. Revela-se.

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