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Mostrando postagens de janeiro, 2026

O luxo de desacelerar antes do fim

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  O grande rei Salomão dizia que é melhor ir à casa do luto do que à casa da festa. Durante muito tempo, essa ideia me soou estranha. A festa tem risos soltos, copos cheios, música alta, distrações suficientes para esquecer a própria vida. O velório, ao contrário, carrega silêncio, peso, ausência. Mas houve um dia em que o paradoxo deixou de ser teoria e virou entendimento. No velório, o corpo imóvel não assusta — revela. Ele nos obriga a pensar: poderia ser eu. Poderia deixar sonhos pela metade, parcelas em aberto, promessas não cumpridas. O carro novo financiado, a casa recém-conquistada, o filho que acabou de nascer. Tudo continua ali, intacto, enquanto alguém se vai. A morte não cancela planos; ela expõe o quanto confiamos demais neles. Quando o falecimento vem de um acidente, a lição é ainda mais cruel. Quem vive correndo, naquele dia dirige devagar. Respeita o semáforo, o limite de velocidade, o tempo. Chega em casa diferente, mais atento, mais humano. O luto desacelera...

Privilégios silenciosos

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A gente costuma chamar de pouco aquilo que se repete. O dia que começa igual ao de ontem, o despertar sem novidade, o levantar quase automático. Talvez um café apressado, talvez nenhum. Um trabalho considerado chato, um almoço simples demais para agradar expectativas exigentes. Arroz com ovo. Um carro velho que range, que denuncia o tempo, que causa certa vergonha ao parar no sinal. Tudo isso vai sendo rotulado como rotina, como insuficiente, como vida comum. Mas enquanto esse cotidiano acontece, alguém não acordou. Alguém partiu na madrugada sem aviso, deixando apenas silêncio e saudade. Alguém abriu os olhos em um quarto branco, sedado, sem saber se voltará a andar. Alguém acordou consciente, mas preso a uma cama que não escolheu. Outros se levantaram sem ter o que comer, sem para onde ir, sem trabalho não por opção, mas por impossibilidade do corpo, da mente ou das circunstâncias. Há quem percorra longas distâncias a pé, sob o sol forte e a chuva fria, sem bicicleta, sem abrigo,...

O Mal do Século Não Grita

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Chamam de mal do século como quem tenta dar nome ao invisível. Mas ele não chega fazendo barulho. Não arromba portas. Ele entra devagar, senta num canto da mente e aprende a conviver. Quando se percebe, já faz parte da rotina. Alguns o carregam desde a infância. A escassez que virou medo. O lar que virou tensão. A palavra dura que virou cicatriz. Houve quem cresceu entre agressões, abusos, maus-tratos e silêncios longos demais para uma criança sustentar. Outros não tiveram nada disso. E isso confunde. Porque nem sempre existe um passado visível que justifique o peso do presente. Às vezes vem da genética, silenciosa e persistente. Às vezes nasce de uma desilusão, de uma frustração, de algo que não saiu como deveria. A verdade é que a forma como surge nem sempre é clara. Não há um marco, um aviso, um dia exato. Quando se percebe, já se está cansado demais para explicar. Fundo demais para fingir. A ansiedade acelera o tempo. A depressão o esvazia. Uma empurra para o futuro, a outr...

A Virtude da Ação Imperfeita

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Existe uma distância silenciosa entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz. Nesse intervalo estreito mora o humano. Ali nascem as intenções mais puras e também as tentações mais desconfortáveis. Pensar é fácil. Agir é sempre mais complexo. A intenção costuma nascer limpa. Quase sempre nasce bem. É o desejo de acertar, de fazer o justo, de escolher o caminho correto. Mas a execução carrega o peso da realidade, das circunstâncias, das urgências e dos limites pessoais. Nem tudo que é pensado consegue sair ileso quando atravessa o mundo. Costuma-se afirmar que são as obras que definem o homem. Mas isso é apenas parte da verdade. As boas obras não fazem, por si só, um homem bom. As más obras também não tornam automaticamente alguém mau. É o homem mau que produz más obras, assim como é o homem íntegro que, mesmo errando, carrega outra raiz. O caráter não se mede por um ato isolado, mas pela direção constante do que se é. Eu já errei muito. Não por crueldade, mas por excesso. Ganânc...

Entre o ser e o estar

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Perguntar o que é felicidade já carrega um equívoco. Não porque a pergunta seja inútil, mas porque ela pressupõe definição. A vida, no entanto, raramente se deixa definir. Ela acontece em estados, em passagens, em momentos que não se repetem da mesma forma. Ninguém atravessa a existência inteiro o tempo todo. Há dias claros e dias opacos, e ambos pertencem ao mesmo caminho. Uma vida composta apenas de alegria pareceria artificial, quase um erro de cálculo. Sem fraturas, sem perdas, sem o peso das noites longas. Da mesma forma, uma existência tomada apenas pela tristeza causaria estranhamento, como se algo essencial tivesse sido suprimido. Não é a ausência da dor que nos humaniza, mas o modo como convivemos com ela. O contraste é o que dá relevo ao viver. Há quem conte a própria história como quem organiza um álbum seletivo. Não para enganar, mas para seguir. A memória também é uma forma de escolha. Certas dores são silenciadas porque já cumpriram seu papel. Outras permanecem porque ain...

Oportunidade não é desafio

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Há um erro sutil, quase elegante, na forma como nomeamos as coisas. Chamamos de desafio aquilo que, muitas vezes, é apenas uma oportunidade vestida de esforço para parecer nobre. Talvez porque a palavra desafio soe mais digna, mais heroica, mais aceitável aos olhos de quem observa de fora. Desafio, no sentido mais honesto da palavra, é subir e descer o pico de uma montanha. É enfrentar uma maratona longa, onde cada passo cobra do corpo e da mente algo que ainda não se sabe se existe. O desafio não seduz, ele exige. Não promete atalhos, apenas a chance de continuar. Há risco, desgaste e a possibilidade concreta de falhar. E mesmo assim, segue sendo desafio. Oportunidade é outra matéria. Ela não testa resistência física nem coragem épica. Ela testa discernimento. Costuma chegar em silêncio, quase sempre confortável, oferecendo caminhos planos quando ainda nem se terminou a subida. Não pede superação, pede escolha. E escolhas, ao contrário dos desafios, não nos empurram, nos revelam. O pr...

Ser feliz ou ter razão

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Caminhando por aquele lugar onde o rio encontra o mar, ou talvez apenas o reconheça à distância, dependendo do caminho que se escolhe. Há travessias feitas por cima das águas, curtas no espaço e longas no sentir. Outras seguem pela estrada, mais extensas aos olhos, mas curiosamente mais rápidas no tempo. Ali, a paisagem parece pensar junto com quem passa, como se ensinasse, em silêncio, que proximidade não garante encontro e que chegar primeiro nem sempre significa chegar inteiro. Cada rua se abre como um convite distinto. As cores parecem escolhidas com intenção, as sombras aliviam mais do que o calor, e a calma não exige pressa. Pessoas passam como se soubessem exatamente para onde vão, ou como se não precisassem ir a lugar algum. Tudo convive sem esforço, o simples e o encantado, o cotidiano e o extraordinário. Foi nesse caminhar despretensioso, entre uma beleza e outra, que avistei uma pequena placa, discreta, quase tímida, pendurada na fachada de uma lojinha. Poucas palavras...