O luxo de desacelerar antes do fim
O grande rei Salomão dizia que é melhor ir à casa do luto do que à casa da festa. Durante muito tempo, essa ideia me soou estranha. A festa tem risos soltos, copos cheios, música alta, distrações suficientes para esquecer a própria vida. O velório, ao contrário, carrega silêncio, peso, ausência. Mas houve um dia em que o paradoxo deixou de ser teoria e virou entendimento. No velório, o corpo imóvel não assusta — revela. Ele nos obriga a pensar: poderia ser eu. Poderia deixar sonhos pela metade, parcelas em aberto, promessas não cumpridas. O carro novo financiado, a casa recém-conquistada, o filho que acabou de nascer. Tudo continua ali, intacto, enquanto alguém se vai. A morte não cancela planos; ela expõe o quanto confiamos demais neles. Quando o falecimento vem de um acidente, a lição é ainda mais cruel. Quem vive correndo, naquele dia dirige devagar. Respeita o semáforo, o limite de velocidade, o tempo. Chega em casa diferente, mais atento, mais humano. O luto desacelera...