A Virtude da Ação Imperfeita
Existe uma distância silenciosa entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz. Nesse intervalo estreito mora o humano. Ali nascem as intenções mais puras e também as tentações mais desconfortáveis. Pensar é fácil. Agir é sempre mais complexo.
A intenção costuma nascer limpa. Quase sempre nasce bem. É o desejo de acertar, de fazer o justo, de escolher o caminho correto. Mas a execução carrega o peso da realidade, das circunstâncias, das urgências e dos limites pessoais. Nem tudo que é pensado consegue sair ileso quando atravessa o mundo.
Costuma-se afirmar que são as obras que definem o homem. Mas isso é apenas parte da verdade. As boas obras não fazem, por si só, um homem bom. As más obras também não tornam automaticamente alguém mau. É o homem mau que produz más obras, assim como é o homem íntegro que, mesmo errando, carrega outra raiz. O caráter não se mede por um ato isolado, mas pela direção constante do que se é.
Eu já errei muito. Não por crueldade, mas por excesso. Ganância de acertar, sede de resolver, vontade quase desesperada de fazer dar certo. Houve vezes em que a intenção era tão grande que atropelou a prudência. O erro não nasceu da maldade, mas do excesso de zelo. Uma virtude sem freio também pode tropeçar.
Dizem por aí que planejar um crime não é crime, porque não houve execução. A lei pode até absolver o pensamento, mas a consciência nem sempre acompanha o mesmo raciocínio. Há uma impureza que surge no instante em que a intenção se inclina para o desvio, ainda que o gesto nunca se concretize. O ato não aconteceu, mas algo já foi visitado por dentro. A punição, nesse caso, não vem de fora. Ela se instala no campo mental, silenciosa, repetitiva, insistente.
E o homem ou a mulher que pensa em trair e não trai? O corpo permanece fiel, mas a mente ensaiou a travessia. Pensar é desejar em estado bruto. Alguns dirão que o caráter já foi manchado. Outros dirão que resistir ao impulso é virtude. Há quem se esconda atrás das circunstâncias, do cansaço, da dor, do argumento fácil do troco. No fim, a discussão não é sobre o ato, mas sobre o lugar íntimo onde cada um decide se confrontar ou se justificar.
Mas há também quem pense em mentir e não minta. Quem cogite atravessar o sinal vermelho e freie. Quem sinta o impulso e, ainda assim, escolha o limite. Nesse caso, não há erro, nem desvio de caráter. Houve apenas consciência em funcionamento. Pensar não é decidir. O pensamento pode ser impulso, fraqueza, curiosidade. A decisão é escolha. E a escolha revela quem governa.
A culpa antecipada, tão desprezada por alguns, pode ser sinal de lucidez. Não como castigo, mas como alerta. Ela não condena o pensamento, apenas impede que ele vire prática. Talvez o caráter não esteja na ausência de ideias erradas, mas na recusa em hospedá-las.
Todos somos visitados por pensamentos que não nos representam por inteiro. O que nos define não é a visita, mas a permanência. Há ideias que passam como nuvens. Outras pedem morada. O caráter se revela no não dito, no não feito, no gesto interrompido antes de se tornar erro.
Talvez a verdadeira virtude não seja nunca pensar no desvio, mas reconhecer o limite e respeitá-lo. Porque agir corretamente quando seria fácil não agir também é uma forma silenciosa de integridade.
E agora, depois de tudo isso, resta a pergunta que não se escreve para ser respondida em voz alta. Em qual ponto você se encontra? Na intenção que se corrompeu e nunca virou ato? No pensamento que foi freado? No erro cometido com boa vontade? Ou na justificativa elegante que alivia a consciência?
A crônica termina aqui. O julgamento, não.

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