Em Dobro, a Troco de Nada

 





Costumo dizer que desejo em dobro tudo aquilo que desejam para mim.

Alguns recebem a frase como gentileza.

Outros ficam em silêncio, desconfortáveis, como se tivessem sido chamados a prestar contas.

Talvez porque desejar em dobro seja leve quando a intenção é boa,

mas pesado quando carrega inveja, julgamento ou maldade disfarçada.


E a verdade é que, muitas vezes, as pessoas sentem inveja a troco de nada.

O outro não fez mal, não prejudicou, não passou por cima de ninguém.

Ainda assim, a tal “alma divina” decide que não foi com a cara de alguém.

É nesse ponto que a pergunta surge, inevitável:

em quem, afinal, está o defeito?


O mal nem sempre nasce de uma agressão direta.

Às vezes ele nasce do incômodo que o outro causa só por existir,

por seguir o próprio caminho,

por não pedir permissão para ser quem é.

Então vêm as falsidades, os prejuízos silenciosos,

os desejos ruins guardados no pensamento —

tudo a troco de nada.


Como se não bastasse, vivemos cercados de opiniões não solicitadas.

Opiniões que não querem ajudar, mas invadir.

Quando confrontadas, recebem um nome bonito:

crítica construtiva.

Na prática, é apenas a forma maquiavélica de rebaixar alguém

enquanto se finge nobre.


Quem realmente quer construir, pergunta.

Respeita.

Espera ser convidado.

O resto é vaidade moral,

é a necessidade de se sentir acima

porque não conseguiu fazer as pazes consigo mesmo.


O que muitos esquecem é que intenção também pesa.

O mal que se faz em silêncio caminha.

O que se deseja, mesmo sem palavras, encontra o caminho de volta.

Por isso a ideia do “em dobro” assusta tanto.

Ela não ameaça.

Ela apenas devolve.


No fim, a conta chega.

Não por castigo,

mas por coerência.

E quem vive desejando o mal, invadindo, julgando e diminuindo,


um dia se pergunta

por que a vida anda tão pesada.



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