Entre o ser e o estar
Perguntar o que é felicidade já carrega um equívoco. Não porque a pergunta seja inútil, mas porque ela pressupõe definição. A vida, no entanto, raramente se deixa definir. Ela acontece em estados, em passagens, em momentos que não se repetem da mesma forma. Ninguém atravessa a existência inteiro o tempo todo. Há dias claros e dias opacos, e ambos pertencem ao mesmo caminho.
Uma vida composta apenas de alegria pareceria artificial, quase um erro de cálculo. Sem fraturas, sem perdas, sem o peso das noites longas. Da mesma forma, uma existência tomada apenas pela tristeza causaria estranhamento, como se algo essencial tivesse sido suprimido. Não é a ausência da dor que nos humaniza, mas o modo como convivemos com ela. O contraste é o que dá relevo ao viver.
Há quem conte a própria história como quem organiza um álbum seletivo. Não para enganar, mas para seguir. A memória também é uma forma de escolha. Certas dores são silenciadas porque já cumpriram seu papel. Outras permanecem porque ainda ensinam. Em oposição, há quem tenha sido moldado pela falta desde cedo e, ao experimentar a constância da alegria, não saiba onde pousar os pés. A felicidade, quando desconhecida por muito tempo, não chega como abrigo. Chega como espanto.
O mundo oferece exemplos que desmontam qualquer lógica simples. Há quem tenha tudo e caminhe vazio. Há quem tenha pouco e encontre sentido no ordinário. O dinheiro alarga caminhos, mas não constrói significado. Se a felicidade obedecesse à vontade, a tristeza também obedeceria. E ninguém escolhe conscientemente carregar angústia. Existem dores que não nascem da decisão, mas da trajetória, dos encontros, das ausências.
Quando a comparação abandona o campo material, o desconforto se aprofunda. Há corpos marcados pela limitação desde o início e, ainda assim, atravessados por uma serenidade difícil de explicar. Não é desejo de imitação que isso provoca, mas silêncio. Do outro lado, corpos íntegros, possibilidades abertas, liberdade de escolha, e uma pergunta que ecoa sem resposta. Como pode faltar tanto a quem aparentemente não falta nada?
A felicidade que mais inquieta não é a ruidosa, mas a silenciosa. Aquela que nasce da aceitação lúcida da própria condição. Não da rendição, mas do entendimento dos próprios limites. Alguns sofrem pela perda do que tiveram. Outros aprendem a existir a partir do que nunca lhes foi dado. Nenhum caminho é superior. Apenas diferentes formas de sustentar a vida.
A resposta final não se apresenta durante o percurso. Ela se insinua apenas no fim, quando o tempo desacelera e a memória se organiza em fragmentos. Não como julgamento, mas como reconhecimento. Talvez não haja frase conclusiva. Talvez reste apenas a percepção de que houve alegria, houve dor, houve presença.
Porque ninguém é feliz ou triste como essência. O ser é pesado demais para comportar estados tão instáveis. O humano vive no estar. Estar inteiro, estar ferido, estar em paz, estar em reconstrução. Confundir estado com identidade é o que aprisiona.
Viver, então, não é se fixar na alegria nem se acomodar na tristeza. É atravessar ambos sem transformar nenhum em morada. A diferença entre ser e estar percorre não apenas os sentimentos, mas todas as dimensões da existência.
E talvez a vida não peça respostas definitivas. Peça apenas lucidez suficiente para atravessar os estados. E, ao final, silêncio bastante para aceitar que isso já foi muito.

Comentários
Postar um comentário