O Erro Convicto
Alguém acordou certo.
Tão certo que passou o dia inteiro errando com convicção.
Dormiu em paz.
Nada é mais confortável
do que uma certeza mal examinada.
Alguém dizia que a mentira,
repetida muitas vezes,
acabava virando verdade.
Muitos acreditaram.
Outros, não.
Talvez porque a mentira
não deixe de ser mentira quando se repete.
Ela apenas encontra abrigo.
E nem sempre quem a abriga
olha no espelho.
O certo muda de lugar.
Depende do olhar,
do tempo,
do lado em que se está.
O que para um é fé,
para outro é excesso.
O que para um é convicção,
para outro é cegueira.
Até o amor por um time
vira rivalidade
quando visto de fora.
E você, leitor…
ou leitora…
errou, erra
e vai continuar errando.
Omitiu
por necessidade,
para não ferir.
Mentiu
ao ladrão,
disse não ter
o que ele queria levar.
Falou a verdade
mas fora de tempo.
E a verdade, assim dita,
machucou quem ouviu.
Então onde mora o erro?
Na omissão que protegeu?
Na mentira que salvou?
Ou na verdade
que chegou tarde demais?
Dormiu.
E acordou.
Se dormiu e acordou,
é porque está vivo.
Afinal, morto não acorda.
Já dizia o velho sábio:
quem quase vive está morto.
Quem quase morre,
está vivo.
Hoje você vive.
Amanhã você existe.
E assim, enquanto houver fôlego,
vai vivendo esse looping.
Sem saber ao certo
se está desperto
ou apenas funcionando.
Essa crônica trata do autoengano humano
e da fragilidade das certezas.
Ela afirma que grande parte do que chamamos
de “verdade”, “acerto” ou “virtude”
é construída por convicção, repetição,
contexto e conveniência,
não por verdade absoluta.
Assim, quem quiser sentir, sente.
Quem quiser entender, entende.
E quem quiser discordar…
já está dentro do tema.

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