Precedência

 





No fim de tudo, sobra isso:

escolhemos ou somos escolhidos?


Carregamos nomes, traços, silêncios, medos que não aprendemos sozinhos. Há coisas que vêm no sangue, outras no gesto repetido, outras no jeito como alguém nos olhou quando ainda não sabíamos quem éramos. Chamam de herança. Chamam de criação. Chamam de destino.


Mas há também o instante raro quase sempre tardio em que percebemos que estamos repetindo algo que não lembramos de ter escolhido. E nesse instante, a pergunta nasce. Não como revolta, mas como lucidez.


Talvez algumas inclinações sejam herdadas, ou não.

Talvez certos caminhos nos escolham antes que saibamos andar.

Talvez a liberdade não seja nascer sem correntes, mas reconhecer quais delas ainda aceitamos usar.


Escolhemos?

Ou escolhemos a partir de um lugar que não criamos?


Somos escolhidos, também.

Pelo tempo, pela família, pelo acaso, por forças que não pedem consentimento.


E no meio disso tudo, vivemos tentando entender onde termina a herança e onde começa a responsabilidade.


Talvez a pergunta certa nunca tenha sido “sou livre?”

Mas: o que faço com aquilo que recebi sem pedir?



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