Privilégios silenciosos





A gente costuma chamar de pouco aquilo que se repete. O dia que começa igual ao de ontem, o despertar sem novidade, o levantar quase automático. Talvez um café apressado, talvez nenhum. Um trabalho considerado chato, um almoço simples demais para agradar expectativas exigentes. Arroz com ovo. Um carro velho que range, que denuncia o tempo, que causa certa vergonha ao parar no sinal. Tudo isso vai sendo rotulado como rotina, como insuficiente, como vida comum.


Mas enquanto esse cotidiano acontece, alguém não acordou. Alguém partiu na madrugada sem aviso, deixando apenas silêncio e saudade. Alguém abriu os olhos em um quarto branco, sedado, sem saber se voltará a andar. Alguém acordou consciente, mas preso a uma cama que não escolheu. Outros se levantaram sem ter o que comer, sem para onde ir, sem trabalho não por opção, mas por impossibilidade do corpo, da mente ou das circunstâncias. Há quem percorra longas distâncias a pé, sob o sol forte e a chuva fria, sem bicicleta, sem abrigo, apenas com persistência. E ainda assim agradeça. Não pelo conforto, mas pela chance de seguir.


É aí que a vida revela sua ambiguidade. O que para uns é motivo de reclamação, para outros é desejo. O emprego cansativo ainda sustenta. O almoço simples ainda alimenta. O carro velho ainda leva e traz. Respirar sem dor, caminhar sem ajuda, decidir o rumo do próprio dia são privilégios tão silenciosos que passam despercebidos. Só fazem barulho quando faltam.


Não se trata de romantizar a dor alheia nem invalidar o cansaço diário. Trata-se de consciência. Porque quando o olhar se amplia, a queixa diminui. A gratidão não elimina os problemas, mas muda o peso deles. E o ordinário começa a revelar algo sagrado.


As sagradas escrituras ensinam que este é o dia concedido para ser vivido com alegria e reconhecimento. Não porque tudo esteja perfeito, mas porque há vida acontecendo. Há um chamado constante para reconhecer o fôlego como dádiva, o pão como provisão e o simples fato de estar de pé como graça diária.


E então vem o choque de realidade. Tudo aquilo que hoje parece pouco pode ser exatamente o que amanhã fará falta. O que hoje é rotina pode virar lembrança. O que hoje é desprezado pode se tornar oração.


Ó Deus, Grande Arquiteto do Universo,

te agradeço porque hoje eu acordei.

Porque respiro o ar que Tu me concedeste.

Porque meus pés me sustentam e meu corpo responde.

Porque há alimento, ainda que simples.

Porque há caminho, ainda que longo.

Ensina-me a não desprezar os privilégios silenciosos

e a reconhecer que viver, por si só, já é motivo suficiente de gratidão.


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