Se fosse eu
As pessoas costumam olhar a história do outro e dizer, com uma facilidade desconcertante:
“Se fosse eu, faria diferente.”
Dizem isso porque não foi com elas.
Não estavam ali quando a decisão precisou ser tomada.
Não sentiram o medo específico daquele momento,
nem o cansaço acumulado,
nem a coragem que, às vezes, nasce já cansada.
É simples opinar quando se olha de fora.
Simples imaginar rotas quando não se conhece o mapa.
Há caminhos que parecem errados apenas para quem não sabe o que ficou para trás.
Há escolhas que não são sobre vontade,
mas sobre sobrevivência emocional.
Às vezes é algo pequeno.
Uma rua.
Um trajeto.
Alguém diz que teria passado por outro caminho.
E quem viveu fica em silêncio,
porque lembra do buraco enorme da última vez que tentou.
Outras vezes, é algo maior.
Bem maior.
Uma decisão que mudou tudo.
Um ir embora.
Um voltar.
Um ficar quando todos saíram.
Ou sair quando ninguém entendeu.
De fora, parece simples.
Por dentro, era o único caminho possível naquele instante.
Certa vez, ouvi alguém dizer algo que ficou:
não se julga o erro de ontem
sem conhecer o acerto de hoje.
Porque o tempo muda as pessoas.
As dores ensinam.
E há batalhas que ninguém viu.
A vida não se decide em laboratório.
Ela acontece no improviso,
no limite,
no que dá pra fazer com o que se tem naquele dia.
Talvez, antes de dizer “se fosse eu”,
fosse melhor perguntar:
o que essa pessoa sabia naquele momento que eu não sei agora?
e quem ela precisou se tornar depois disso?
Porque maturidade não é acertar sempre.
É entender que nem toda escolha nasce da liberdade
algumas nascem da necessidade.
E quando o julgamento dá lugar à escuta,
descobre-se algo essencial:
não existe caminho perfeito.
Existe o caminho que foi possível.
E respeitar a travessia do outro
é reconhecer que sobreviver
já é, por si só,
uma forma de coragem.

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