Ser feliz ou ter razão




Caminhando por aquele lugar onde o rio encontra o mar, ou talvez apenas o reconheça à distância, dependendo do caminho que se escolhe. Há travessias feitas por cima das águas, curtas no espaço e longas no sentir. Outras seguem pela estrada, mais extensas aos olhos, mas curiosamente mais rápidas no tempo. Ali, a paisagem parece pensar junto com quem passa, como se ensinasse, em silêncio, que proximidade não garante encontro e que chegar primeiro nem sempre significa chegar inteiro.


Cada rua se abre como um convite distinto. As cores parecem escolhidas com intenção, as sombras aliviam mais do que o calor, e a calma não exige pressa. Pessoas passam como se soubessem exatamente para onde vão, ou como se não precisassem ir a lugar algum. Tudo convive sem esforço, o simples e o encantado, o cotidiano e o extraordinário.


Foi nesse caminhar despretensioso, entre uma beleza e outra, que avistei uma pequena placa, discreta, quase tímida, pendurada na fachada de uma lojinha. Poucas palavras, mas um peso inesperado: “ser feliz ou ter razão”.


Depois disso, passei a reparar mais atentamente nas pessoas ao redor. Algumas riam alto, despreocupadas, talvez certas de tudo ou talvez de nada. Outras caminhavam sérias, com o olhar firme, como quem sustenta verdades que não aceita negociar. Tentei adivinhar quem ali tinha escolhido a felicidade e quem tinha escolhido a razão. Não demorou para perceber o erro. A vida não se deixa classificar assim com tanta facilidade.


A razão, quando vira orgulho, endurece. A felicidade, quando vira fuga, se esvazia. Talvez a placa não falasse de uma escolha real, mas de um conflito antigo. Quantas vezes insistimos em estar certos mesmo quando isso nos afasta de quem amamos? Quantas vezes cedemos apenas para manter a paz, mas voltamos para casa em guerra com nós mesmos?


Ser feliz sem nenhuma razão pode virar ilusão. Ter razão sem nenhum afeto costuma virar solidão. A maturidade, talvez, esteja justamente naquele ponto incômodo onde a razão aprende a ser gentil e a felicidade aprende a ser responsável.


Na volta, li a placa outra vez. Já não parecia uma provocação, mas um espelho. Não perguntava o que eu queria ser naquele dia, mas quem eu vinha sendo ao longo da vida. Segui caminhando, enquanto ela permanecia ali, imóvel, observando quem passava, como se soubesse que alguns a leriam como um aviso, outros como um conselho, e poucos como aquilo que talvez sempre foi.


Será que felicidade e razão caminham juntas, ou convivem apenas em permanente tensão?

Talvez o problema não seja escolher entre ser feliz ou ter razão, mas aceitar que, muitas vezes, uma desafia a outra.


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