Entre a Vontade Divina e a Fragilidade Humana
Há momentos em que o ser humano se vê diante de perguntas grandes demais para caber na própria razão. É nesse ponto que a fragilidade humana se revela com mais clareza, não como fraqueza, mas como condição. Tentamos compreender a vontade e o propósito de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, e quase sempre falhamos. Não por incredulidade ou revolta, mas porque faz parte da nossa essência buscar sentido, mesmo quando o sentido não se deixa encontrar.
Questionamos os porquês do sofrimento do justo, das perdas, das dificuldades que parecem desproporcionais. Indagamos não por ira, mas por humanidade. E, ainda que não compreendamos, acabamos aceitando que o que não acontece por ordem direta do Grande Arquiteto acontece debaixo da Sua vontade. As perguntas permanecem, silenciosas ou insistentes, e seguimos mesmo assim.
As Escrituras nos lembram desse limite quando o Altíssimo responde a Moisés: terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, não pode o barro contender com o oleiro. Não foi uma explicação, foi um limite. Um lembrete de que há uma distância intransponível entre o Criador e a criatura. Ainda assim, crentes ou não, continuamos a perguntar. Por quê? Criamos comparações, julgamos, tentamos classificar o bem e o mal a partir de critérios humanos, imediatos e falhos, como se fosse possível medir a justiça divina com a régua da nossa lógica.
Nesse esforço de dar sentido ao que dói, recorremos a frases prontas que tentam aliviar o peso da realidade. O que não nos mata nos torna mais fortes serve para algumas experiências da vida, mas falha diante de dores que não fortalecem, apenas permanecem. Para uma mãe ou um pai que perdem um filho de maneira precoce, não existe força que substitua a ausência. Para filhos que perdem seus pais de forma trágica, não há crescimento, há ruptura. Há sofrimentos que não matam de uma vez, mas consomem lentamente, dia após dia, no silêncio que ninguém vê.
Talvez o maior erro esteja em romantizar o sofrimento, como se toda dor viesse acompanhada de um propósito claro e imediato. Algumas dores não vêm para ensinar, mas para revelar o quanto somos frágeis, limitados e dependentes de algo maior. Nesses momentos, a fé deixa de ser resposta e passa a ser sustento. Ela não explica, mas ampara. Não elimina as perguntas, mas permite que convivamos com elas.
No fim, compreender nem sempre é possível, mas continuar é necessário. Permanecer não porque a dor nos tornou mais fortes, mas porque, apesar dela, escolhemos seguir. Confiar que, mesmo rachado, o barro continua nas mãos do Oleiro. A obra não está concluída. Enquanto houver fôlego, há caminho. Caminhar, mesmo sem respostas, não é fraqueza. É fé.

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