O relógio não mede aplausos
Você já se pegou pensando no que é bom?
Não no que faz, mas no que é.
Quase sempre, a pergunta nasce torta. Olhamos para fora antes de olhar para dentro. Fulano canta bem. O outro domina a oratória. Aquele construiu um nome, um cargo, um prestígio. E, enquanto colecionamos referências alheias, surge o incômodo silencioso: eu sou bom em quê?
É nesse ponto que muitos se perdem. Dizem que não são bons em nada, que não têm talento. Repetem isso até acreditarem. Confundiram valor com desempenho. Ser bom virou sinônimo de produzir, aparecer, impressionar. A vida, no entanto, nunca avaliou pessoas por currículo.
O mundo aplaude resultados. O relógio, não.
Ele segue marcando o tempo com indiferença elegante, lembrando que o relógio não mede aplausos. Ele mede permanência.
Ser bom vai além de talentos visíveis, vocações admiradas ou títulos que impressionam. Às vezes, você é bom em cativar pessoas. Em ouvir sem interromper. Em se colocar no lugar do outro. Em escolher não ferir, mesmo quando poderia. Em pedir desculpas, mesmo estando certo.
Há uma coragem silenciosa nisso. A essência reconhece. Ela sabe que nem toda vitória precisa ser vencida, que nem toda razão precisa ser provada. Enquanto o mundo contabiliza conquistas, o tempo registra escolhas. Ele não pergunta o quanto você conquistou, mas quem você foi quando ninguém estava contando pontos.
Curiosamente, virtudes que deveriam ser obrigação humana tornaram-se raras. Educação, empatia, honestidade, tudo isso virou exceção em tempos de escassez de princípios. Talvez o erro esteja justamente aí: desprezar o essencial por não parecer extraordinário.
Faça uma autorreflexão honesta. Analise-se com cuidado. Em quantas coisas você é bom? Talvez em incontáveis, justamente porque muitas delas não cabem em aplausos nem em títulos. E aquele outro, que você admira e chama de bom, talvez não passe de alguém com um talento bem executado. Apenas isso.
Talento impressiona. Essência sustenta.
O que adianta ser excelente em um detalhe e falhar em todo o resto? O que adianta ser brilhante no que faz e negligente no que é? Criamos ídolos que nem sabem da nossa existência e ignoramos gestos simples que mantêm o mundo de pé, em silêncio.
Pare.
Olhe para o espelho.
Veja-se.
Veja-se no bom dia ao motorista do ônibus. Na preferência oferecida na fila do supermercado. No troco devolvido sem hesitar. É nesses gestos que a bondade se revela, sem palco, sem anúncio, sem aplauso. Porque o relógio continua ali, marcando, indiferente ao barulho.
E se você pudesse se colocar no lugar do outro apenas para se olhar?
Sem desculpas. Sem justificativas. Sem maquiagem moral.
Você diria: eu queria ser bom como essa pessoa?
Ou sentiria vergonha de si mesmo?
Porque talento impressiona.
Discurso convence.
Reconhecimento seduz.
Mas o tempo permanece.
E o relógio não mede aplausos.
Querendo ou não, você é referência.
Ou do que alguém gostaria de ser.
Ou do que alguém jamais desejaria se tornar.
E talvez essa seja a única avaliação que realmente importa.

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