Sentenças sem processos




Nós trazemos impregnado em nossa essência o hábito do pré julgamento. Antes mesmo de ouvir, instauramos um veredito. Não há investigação, não há escuta, não há contexto. Apenas a pressa de concluir. Assim, transformamos a convivência humana em um tribunal improvisado, onde todos opinam, poucos compreendem e ninguém concede o direito à ampla defesa.


A mente se torna juíza. O olhar vira acusação. O silêncio do outro é interpretado como culpa e o sorriso como disfarce. Quando alguém parece feliz demais, suspeitamos. Quando demonstra tristeza, condenamos. Se demora a casar, recebe uma advertência moral. Se casa cedo, é imprudente. Se muda o rumo da vida, é instável. Se permanece, é acomodado. Em qualquer cenário, a sentença já foi redigida antes mesmo do processo começar.


Nesse tribunal invisível, o julgamento costuma vestir toga de boas intenções. Recebe o nome de opinião. Se apresenta como crítica construtiva. Mas toda crítica não solicitada é uma invasão travestida de cuidado. Não busca justiça, busca superioridade. Não corrige, afirma ego.


E quando o julgamento extrapola os muros da intimidade, o alcance se amplia. Pessoas que não conhecemos passam a ser réus permanentes. A pessoa em situação de rua vira fracasso social. O corpo fora do padrão vira negligência. O diferente vira erro. O rótulo substitui a história. A aparência encerra o caso sem que os autos sejam sequer abertos.


Mas a incoerência se revela quando o juiz esquece que também está no banco dos réus. Será que você diria a si mesmo que fracassou da mesma forma que atrela esse rótulo ao outro. Será que, vivendo as mesmas ausências, as mesmas dores e as mesmas circunstâncias, sua escolha seria diferente. Julgamos finais sem conhecer os processos. Condenamos resultados sem jamais entender o caminho percorrido.


Gastamos tempo demais tentando decifrar o indecifrável do outro, algo que não acrescenta nada à nossa própria evolução. Enquanto isso, negligenciamos o essencial. Não instauramos processos internos. Não revisamos nossas decisões. Não fazemos auto análises periódicas. Preferimos acusar do que nos responsabilizar.


Talvez o mundo fosse menos injusto se o julgamento fizesse o caminho inverso. Se antes de sentenciar o outro, abríssemos um processo contra nossas próprias incoerências. Se aplicássemos a nós a mesma rigidez que aplicamos ao próximo. Como ensinou Jesus, o Mestre dos mestres, em palavras que atravessam séculos sem perder força. Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.


No fim, a pergunta permanece ecoando como uma sentença não escrita. Quantas decisões você tem proferido sobre a vida alheia sem nunca ter concedido o direito à defesa, enquanto adia, indefinidamente, o processo mais importante, o de se julgar com honestidade.


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