Tempos de ausência
Passei a vida ouvindo que o mal não vencerá o bem.
Era dito como certeza.
Quase como lei moral.
Mas, se o mal não existe, se o que existe é ausência do bem, então o que vemos não é vitória do mal.
É a expansão de um vazio.
E o vazio tem crescido.
Não em tragédias excepcionais.
No cotidiano.
Na pequena desonestidade que já não constrange.
Na vantagem chamada de inteligência.
Na incoerência que deixou de ser falha e virou método.
O bem não foi derrotado de uma vez.
Foi sendo abandonado em concessões.
Concessões pequenas.
Quase razoáveis.
Quase normais.
Quase aceitáveis.
É no “quase” que ele se dissolve.
Indignamo-nos com a corrupção que veste terno.
Toleramos a que usa roupa comum.
Condenamos o desvio distante.
Justificamos o próximo.
Chamamos de sistema o que, muitas vezes, é soma.
A distorção que denunciamos em escala grande repetimos em escala pequena, com a mesma lógica e apenas menos zeros.
Talvez a essência de muitos nunca tenha sido boa.
Talvez apenas tenha sido contida.
E, quando a contenção enfraquece, revela-se.
Isso desconcerta.
Preferimos acreditar que poucos se desviam e muitos são íntegros.
Mas a experiência cotidiana sugere algo mais incômodo: muitos apenas se contêm; poucos se constroem.
E a empatia encolheu.
Não desapareceu.
Mas encolheu.
Passamos por quem precisa com pressa suficiente para não ver demais.
Sem crueldade aberta.
Sem cuidado real.
Não é violência.
É omissão normalizada.
E então nasce o cansaço moral.
Quem tenta manter coerência começa a sentir que está deslocado no próprio tempo.
Como se jogasse por regras que o mundo já não usa.
Ser correto parece desvantagem.
Ser íntegro parece atraso.
Ser ético parece ingenuidade.
Você mantém a palavra.
Outro negocia a dele.
Você recusa o ganho fácil.
Outro prospera nele.
Você preserva limites.
Outro os flexibiliza e avança.
O mundo recompensa o ajuste.
Não a retidão.
E surge a pergunta silenciosa:
vale a pena?
Vale insistir quando nada muda?
Vale manter o certo quando o errado funciona?
Vale permanecer coerente quando a incoerência vence no entorno?
A sensação é clara:
ser íntegro virou enxugar gelo.
Você faz o certo.
O padrão continua.
Você resiste.
O ambiente não.
Você preserva.
O mundo não muda.
Parece inútil.
Mas há um erro nessa percepção.
Enxugar gelo seria tentar corrigir o mundo.
E ninguém corrige o mundo.
A integridade faz outra coisa:
impede que o gelo se instale em quem a pratica.
Isso não transforma o todo.
Mas impede a totalidade do frio.
A ausência do bem não vence quando cresce.
Vence quando se torna absoluta.
E ela ainda não é.
Porque ainda há quem se incomode.
Quem hesite antes de ceder.
Quem prefira perder vantagem a perder caráter.
Quem mantenha a mesma ética quando ninguém vê.
Esses fazem pouco ruído.
Por isso parecem poucos.
Talvez não sejam.
Talvez o bem nunca tenha sido maioria.
Apenas suficiente.
Suficiente para que a injustiça não seja total.
Para que a indiferença não seja completa.
Para que a ausência não ocupe tudo.
Pode ser que o mundo pareça cada dia mais frio.
Pode ser que a ausência avance.
Pode ser que a coerência pareça ineficaz.
Mas há uma diferença decisiva entre não vencer e desaparecer.
Se você ainda se inquieta com a falta que vê, não desapareceu.
Se ainda resiste ao ajuste fácil, não foi absorvido.
Se ainda tenta, mesmo sem retorno, não é ausência.
Talvez o gelo continue ao redor.
Mas nem tudo congelou.
E, às vezes, tudo o que impede o inverno de se tornar absoluto
é alguém que permanece humano
quando já seria mais fácil não ser.

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