Volte a sonhar





Hoje me peguei voltando muitos anos no tempo, revisitando os sonhos da infância. E acredito que você também tinha os seus. Alguns mirabolantes, outros possíveis, todos sinceros. Vivíamos no território fértil da imaginação, onde cada fase inaugurava um novo futuro. Hoje eu queria ser isso, amanhã aquilo, e assim a vida seguia, sempre projetada adiante, como se o amanhã fosse um lugar habitável. O tempo passou e, quase sem perceber, a magia foi se dissipando. Talvez a vida adulta, com seus rumos rígidos e exigências silenciosas, tenha nos ensinado a chamar de utopia aquilo que antes era apenas esperança.


Quando crianças, não nos importávamos com estatísticas, limites ou probabilidades. Falávamos aos quatro cantos o que queríamos ser, sem medo do riso alheio ou da desaprovação precoce. Crescemos. E, ao crescer, muitos de nós esqueceram. Não apenas os sonhos, mas a coragem de sustentá-los. O amadurecimento, ou talvez o endurecimento, substituiu a inocência por obrigações, frustrações e uma descrença que não grita, apenas cansa. É aí que mora a parte mais triste. Há quem estagne. Há quem perca planos, objetivos e direção. Passam a existir no automático, cumprindo horários, pagando contas, respirando por obrigação. A vida adulta, quando esvaziada de sonhos, torna-se um exercício repetitivo de sobrevivência.


Já parou para pensar qual foi a última vez que você idealizou algo de verdade? Planejou o futuro sem pedir desculpas por isso? Talvez seja preciso voltar à infância para lembrar. Ao longo da vida, li textos de autores desconhecidos que diziam que um homem sem sonhos é um homem sem esperança. Outro afirmava que é como um peixe que não sabe que está na água. E o mais duro dizia que, sem sonhos, a vida seria apenas um ensaio prolongado para o fim. Talvez todas essas frases estejam certas, talvez nenhuma. A verdade costuma habitar esse meio incômodo, onde não há conforto, apenas lucidez.


Mas ainda assim é possível mudar isso. Sonhar não é negar a realidade, é enfrentá-la com propósito. O problema nunca foi crescer, foi esquecer. Em algum ponto do caminho, nos convenceram de que sonhar era imprudente, infantil, perigoso. E acreditamos. Guardamos os sonhos na mesma gaveta dos brinquedos antigos, das cartas não enviadas, das versões de nós que não ousamos mais ser. Ainda assim, eles não morrem. Apenas dormem. Às vezes despertam num domingo qualquer, numa música antiga, num pensamento que surge sem aviso. Não é saudade do passado. É saudade de quem éramos quando acreditávamos sem pedir permissão ao mundo.


Sonhar na vida adulta é um ato de resistência. Já não é ingenuidade, é escolha. É a coragem de quem conhece o peso da realidade e, mesmo assim, decide plantar algo que talvez não colha amanhã. Talvez os sonhos agora sejam menores, mais silenciosos, mais discretos. Talvez não queiram mudar o mundo, apenas tornar os dias habitáveis. E tudo bem. Sonho não precisa ser grandioso. Precisa ser honesto.


Mas há um cuidado necessário. Não saia gritando seus sonhos aos quatro cantos da terra. Existem ladrões de sonhos. Não porque desejem roubá-los para si, mas porque perderam a capacidade de sonhar. Quem apenas existe costuma se incomodar com quem ainda vive. Há pessoas que não suportam ver esperança onde escolheram a resignação. Não se plantam sementes em qualquer solo. Há terras que não nutrem, apenas sufocam. Guarde seus sonhos. Proteja-os. Divida apenas com quem sabe regar.


O antagonismo da vida adulta é esse. Somos ensinados a chamar de maturidade aquilo que, muitas vezes, é apenas desistência bem vestida. Chamam coragem de ilusão e conformismo de sabedoria. Mas a maior ilusão é acreditar que viver sem sonhos é sinal de equilíbrio. O homem que não sonha não vive, apenas ocupa espaço no tempo.


Sonhar não é fuga, é escolha.

Desistir é que parece fácil demais para ser chamado de maturidade.

Quem protege seus sonhos, protege a própria vida.

Porque, no dia em que paramos de sonhar, não envelhecemos.

Apenas começamos a existir.


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