A Ordem Inatural das Coisas

Hoje, durante uma conversa com um irmão daqueles que compartilham comigo os mesmos princípios, valores e caminhos de aperfeiçoamento, fomos conduzidos a um tema que ninguém escolhe abordar, mas que, vez ou outra, a vida impõe. Falávamos sobre a perda de um filho. Enquanto o assunto se desenrolava, percebi que algumas dores são tão profundas que até as palavras parecem insuficientes. Há sofrimentos que não cabem em discursos, não encontram abrigo na lógica e não se acomodam dentro de nenhuma explicação satisfatória. Afinal, não é natural que um pai ou uma mãe enterre um filho. Existe uma ordem silenciosa que carregamos dentro de nós. Esperamos ver os filhos crescerem, construírem suas próprias histórias, seguirem caminhos que talvez nunca imaginamos. Esperamos partir primeiro. É assim que acreditamos que a vida deveria acontecer. Mas nem sempre acontece. O mesmo homem ou a mesma mulher que um dia entrou em um cartório para registrar o nascimento do filho, tomado pela alegria de quem acabara de receber um presente da vida, pode se ver, anos depois, diante de um ato impensável: registrar sua morte. Que palavras podem ser ditas diante de algo assim? O que responder quando alguém pergunta o porquê? A verdade é que existem acontecimentos que expõem a nossa limitação humana. Gostamos de acreditar que compreendemos o mundo, que somos capazes de encontrar razões para tudo. Mas algumas experiências nos lembram que há fronteiras que a razão não consegue atravessar. Há perguntas que permanecem em silêncio. Há lágrimas que nenhuma explicação consegue secar. E talvez uma das maiores demonstrações de maturidade seja reconhecer que nem tudo será compreendido por nós. Nem tudo nos será revelado. Nem toda dor encontrará uma resposta capaz de aliviar o peso que carrega. Enquanto escrevo este singelo texto, lembro-me de uma reflexão de C. S. Lewis. Em essência, ele dizia que Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas dores. Não porque a dor seja boa, mas porque ela tem a capacidade de despertar em nós perguntas que a tranquilidade muitas vezes silencia. Isso não torna o sofrimento menor. Não elimina a saudade. Não preenche o vazio deixado por uma ausência. Mas nos recorda que a vida possui dimensões que vão além daquilo que conseguimos enxergar. Talvez seja por isso que a fé seja tão necessária. Não para responder todas as perguntas, mas para sustentar o coração quando as respostas não chegam. Não para explicar cada lágrima, mas para impedir que elas sejam derramadas em vão. Porque chega um momento em que não precisamos de explicações. Precisamos de consolo. Precisamos acreditar que o amor não termina quando a presença física termina. Que aqueles que amamos continuam vivos nas lembranças que construíram, nos ensinamentos que deixaram, nos valores que transmitiram e nas marcas que gravaram em nossas vidas. A morte pode interromper uma história. Mas não consegue apagar um amor verdadeiro. Há dores que nunca serão totalmente compreendidas. Mas também há uma esperança silenciosa que insiste em permanecer. E talvez seja essa esperança que nos permita seguir adiante, um dia de cada vez, até que a saudade deixe de ser apenas dor e passe a ser também gratidão pelo privilégio de ter vivido, ainda que por um breve tempo, ao lado de quem amamos. Saulo Santiago ∴

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